Eu e as eleições 2010.

É um dado que os indivíduos que se posicionam não conseguem fazê-lo agradando a todos. Uns fazem severas críticas, outros se identificam com eles e outros ainda chegam a por em dúvida a amizade. Coisas da vida! diria o dito popular.

 

O fato é que desde 1989 que não vejo uma eleição como esta. Impressionante como elementos que eu julgava terem sido enterrados nos sepulcros da história ressurgem agora como verdadeiros zumbis e atormentam a pouca inteligência que tenho, me levando à indignação e à necessidade urgente de colocar o meu ponto de vista sob pena de enlouquecer.

 

No afã de tentar clariar meu ponto de vista tenho respondido sistematicamente a uma série de e-mails que invadem minha caixa postal diariamente, mas tudo o que tenho conseguido são interpretações distorcidas acerca do que eu realmente penso. Normal! Afinal, em cada um desses e-mails estou repondendo a questões pontuais e a interpretação acerca de qual é a minha posição acaba ficando oculta.

 

Sendo assim, os primeiros posts do blog, ou até que passe essa eleição, a assunto predominante aqui será a disputa eleitoral. Pretendo tratar de cada um dos pontos que marcam as principais discussões.

 

Tratarei também de tranquilizar alguns queridos amigos que estão achando que virei "casaca" e estou abandonando a "esquerda" ou até mesmo o sonho de se construir uma sociedade mais justa e mais democrática o que - particularmente entendo -  só é possível para além da sociedade burguesa e de sua democracia formal.

 

Inicio explicando o porquê de estar engajado na busca de votos para a candidata Dilma.

 

Já fui filiado ao PT nos antanhos e assim como muitos dos camaradas acreditei até a início da década de 90 que aquele partido carregava em si a potencialidade de aglutinar todas as forças sociais interessadas na construção de uma sociedade que conseguisse avançar para a superação do capital. Entretanto, após algumas vitórias locais (Estados e Municípios) vi algumas mudanças substanciais na composição do partido e passei a questionar seus rumos.

 

Em 2002,  vi um "Lulinha paz e amor", engravatado, barba feita, cabelo baixo, patrocinado por Bancos e apresentando em seu programa eleitoral um homem forte da Febraban (pasmem, Febraban!) acalmando os ânimos da parcela da população que embalada pela doce som da voz Regina Duarte tinha "medo do PT".

 

Naquele momento, esses e outros elementos me levaram a perceber (diferente do que ocorreu com alguns colegas e com uma parte da população que chegou mesmo a dizer que Lula cometeu um estilionato eleitoral) que a estratégia do PT (do PT que havia sobrevivido à debandada geral de militantes aguerridos) havia mudado.

 

Li também a "carta aos Brasileiros" e lá vi que Lula só faria o que realmente fez (e portanto não é estelionato): deixaria um governo em aberto para as disputas das diferentes facções de interesses que compõe a sociedade brasileira. Tentando reproduzir as palavras do candidato Lula naquele momento, lembro que ele dizia: "Nós vamos fazer nesse país um pacto social que nunca antes foi feito". E me parece que foi mais ou menos o que ele fez. Não vou entrar nos detalhes do pacto como por exemplo o atrelamento das centrais sindicais aos interesses do Governo, etc., por  que penso que não é o caso neste momento.

 

Outra coisa importante e que deve ser levada em consideração são as condições sobre as quais Lula recebeu o país em 2003. Ou seja, um país completamente dependente do capital financeiro, sem condições de dar um passo sem as bençãos do FMI e, pior, sem um patrimônio que pudesse utilizar como força econômica para sustentar eventuais mudanças. Me refiro aqui à privataria que o Governo FHC e Serra promoveram a partir da compra, a peso de ouro, de parlamentares, apresentadores de TV e todos aqueles pudessem se opor à sua política entreguista (para entender o processo de DOAÇÃO do patrimônio Brasileiro à iniciativa privada leia O Brasil Privatizado do Jornalista Aloysio Biondi).

 

Ou seja, o Governo Lula não se propôs em nenhum momento a fazer uma revolução e o não o fez.

 

Poderia ter o governo Lula avançado? Certamente! O Governo teve erros? Certamente!

 

Se sei de tudo isso, por que peço votos a Dilma?

 

Peço votos a Dilma por que penso que, se por um lado não avançamos muito em direção a uma sociedade mais plural, mais justa e mais democrática, por outro lado não verticalizamos a via neoliberal e a dependência externa do Brasil.

 

Ou seja, na minha inocência vejo que esse governo manteve o que sobrou do patrimônio público após o desmonte dos Demotucanos e em alguns aspectos fortaleceu o poder do Estado.

 

Aos meus amigos liberais que podem estar me acusando de defender uma heresia ao me referir á necessidade um Estado forte, lembro que na economia burguesa só tem poder político quem  tem poder econômico (aliás, nem inventei isso). Logo, um Estado sem patrimônio vive à mercê dos donos do capital sem ter ao menos o direito de barganhar.

 

De outro lado, a experiência dos Demotucanos tanto na administração Federal quanto nos diversos estados (marcamente em São Paulo) e municípios brasileiros mostram uma obssessão compulsiva pela entrega do patrimônio público e o culto à condição de "vira-lata" do Império (decadente) Americano.

 

Me revolta por exemplo, a possibilidade de pensar que o Pré-Sal, um patrimônio de valor inestimável, deixe de ser regulamentado pelo sistema de partilha como propõe esse governo (Lula) e seja, como pretendem os demotucanos, entregue ao apetite voraz do capital privado, restando à população somente o dever de dividir os custos dos impactos ambientais decorrentes da exploração do petróleo. Um exemplo disso é a situação criada pelo "acidente" ocorrido há pouco no Golfo do México.

 

Eu poderia colocar aqui milhares de questões que me angustiam e me dão a certeza de que,  apesar do discursos acadêmicos acerca da existência ou não de uma "direita" ou de uma "esquerda", temos diante de nós dois projetos distintos de governo e duas concepções distintas de sociedade. Nenhum dos dois me cai bem e certamente não cai bem em você. Mas, definitivamente, não dá pra "colocar tudo no mesmo saco".

 

Um desses projetos representa a volta do neoliberalismo feroz e o outro representa a continuação dessa situação ambigua que combina política economica neoliberal, ações de reforço do poder do Estado e um mínimo de distribuição de renda.

 

Um permite, ao manter o patrimônio do Estado,  que se tenha a esperança de continuar lutando. O outro nos coloca na mesma condição de depência em que estávamos em 2002.

 

Um permite que as crises internacionais (por enquanto) sejam "marolinhas" o outro, nos coloca na rota das "tsunamimes" provocadas pela "orgia" em que consistem as ações do capital financeiro internacional sem rédeas e sem pátria.

 

Talvez para alguns dos meus colegas que têm asseguradas as suas posições nas classes médias isso não tenha muita importância. Mas não tenho dúvida de que para aqueles que até ontem não comiam ou não trabalhavam isso faz uma diferença enorme. Me refiro, por exemplo, àqueles que precisavam pedir esmola na casa do "coronel" e recebiam dele uma cesta básica comprada com o dinheiro da SUDENE, por exemplo.

 

Alguns podem me dizer que a situação não mudou e com o Bolsa-Família a situação continua a mesma e eu sustento que acredito que há uma pequena diferença: hoje a esmola é direito, é oficial e eu não sou mais obrigado a votar no coronel, nem chamá-lo pra apadrinhar o meu filho.

 

Muda pouca coisa? concordo! mas é uma mudança. Tanto que agora o "novo coronel", o Lula, luta com todas as forças pra fazer sua sucessora.  Se a esmola fosse buscada em sua porta bastaria ele dar uma ordem e a sucessão aconteceria.

 

Olhemos ainda para as micromudanças que me parecem ser realmente as marcas mais significativas desse governo. Me refiro ao microcrédito, aos financiamentos sem precedentes para agricultura familiar (aquela que nos alimenta), à profissionalização da Assistência Social por meio da criação dos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) e outras tantas micropolíticas conquistadas a duras penas pelos movimentos sociais que atravessaram as barreiras desse governo.

 

Enfim caros colegas pra não ficar ainda mais enfadanho o texto, encerro por aqui esse primeiro post sobre eleição e me comprometo a trabalhar temas definidos nos próximos textos para que assim possa ser mais objetivo e menos cansativo.

 

 

 

Serra X Dilma

publicado por O Alienista às 17:16